Rosa Alice Branco

O papel do designer na nova sinfonia social

“O papel do designer na nova sinfonia social”, em ICDHS Proceedings: Tadiction, Transiction, trajectories: major or minor influences, Aveiro, ED. UA Aveiro, 2014.

Abstract

A complexidade da lateralização do cérebro – aliada à facilidade em dicotomizar e, consequentemente gerar mitos no âmbito da divulgação científica – determina a prudência com que os neurocientistas abordam este tema. Tendo em conta este alerta, o presente texto defende que o design, como agente de mudança do mundo, só é possível com um maior desenvolvimento das actividades atribuídas ao hemisfério direito. Estas actividades cerebrais são hoje avaliadas através das ressonâncias magnéticas funcionais que permitem, simultaneamente, visionar as alterações da cartografia funcional do cérebro, operadas pela neuroplasticidade.

O conhecimento alicerçado na lógica e no pensamento racional continuam a ser factores preciosos na educação, mas a exigência que hoje temos de relevância estética (no sentido de John Heskett)e de relevância ética (no sentido de Francisco Varela) impele-nos, no primeiro caso, a estimular a criatividade, que está na origem, por exemplo, do cálculo, das artes e do design e, por outro, a empatia e o compromisso social, que estão na base das nossas acções. Neste sentido, teremos de ir aos fundamentos da educação que se pratica, na generalidade dos casos, e mostrar a necessidade de promover o desenvolvimento das actividades que os lateralistas, como Daniel Pink, atribuem ao hemisfério direito, e que têm sido sistematicamente descuradas até agora.

A partir deste pressuposto, a abordagem ao design é aqui perspectivada em estreita conexão com o papel que este desempenha no desenvolvimento cognitivo, no combate à doença e na solidariedade social.

Keywords
empatia, hemisfério direito, educação, design social

INTRODUÇÃO

1. NEUROPLASTICIDADE E CARTOGRAFIA CEREBRAL 

A neuroplasticidade pode ser compreendida como a capacidade do cérebro para se reorganizar quando submetido a mudanças. Este é, um conceito, mais ou menos recente, já que a imutável estrutura do cérebro adulto era um dado adquirido, assim como o facto da inelutável morte dos neurónios, sem que outros pudessem substitui-los. A existência da neurogénese é hoje  um facto provado, embora a proporção dos neurónios que nascem seja muito inferior à dos neurónios que morrem. Mas a plasticidade cerebral ganha um relevo extraordinário, se considerarmos o número e a qualidade de sinapses – as conexões funcionais entre os neurónios – que se podem multiplicar e apurar através da vida inteira.

A experiência deixa um traço na memória, um “traço” (no sentido psicanalítico) que modula o comportamento. O cérebro possui mecanismos sofisticados de armazenagem destes fragmentos de informação e a capacidade de os convocar quando necessário. Em casos de reforços extraordinários do traço, a modulação pode ser de tal ordem que chegue a alterar a função de um componente do cérebro, como no caso de Susan Polgar, a campeã de xadrez que foi educada a memorizar milhares de jogos célebres e os padrões das jogadas ganhadoras. Com base nos resultados de ressonâncias magnéticas funcionais ao cérebro de Susan Polgar foi possível compreender melhor o processo utilizado por esta nos jogos de 60 segundos. As ressonâncias mostraram que Polgar usava o giro fusiforme – um componente cerebral responsável pelo reconhecimento facial – como instrumento de reconhecimento de configurações de xadrez, possibilitando tomadas de decisão tão rápidas como a resposta mais intuitiva, tal como reconhecer um rosto ou escapar a uma trajectória de colisão.

A neuroplasticidade pode também ser verificada pela existência de savants, Nestes, uma injúria (frequentemente inata, como no caso dos savants prodigiosos) no hemisfério esquerdo do cérebro é compensada pela liberalização de algumas áreas do hemisfério direito, tendo como efeito uma criatividade compulsiva em campos como o cálculo ou a música.

Podemos pois identificar os dois aspectos que nos interessam: a existência da lateralização cerebral, evidenciada pela descoberta (por Paul Broca em 1861) da área responsável pela fala, localizada no lobo frontal do hemisfério esquerdo, e o facto de a neuroplasticidade poder providenciar compensação a um dos hemisférios, com a finalidade de salvaguardar certas funções, no caso de disfunções ou injúrias que tornem deficitárias áreas específicas no outro hemisfério.

Este texto baseia-se na ideia de que o design, enquanto agente de mudança, só é possível através de um desenvolvimento profundo de actividades associadas ao hemisfério direito do cérebro. Hoje, estas actividades podem ser avaliadas pelas ressonâncias magnéticas funcionais que, simultaneamente, nos permitem observar as mudanças na cartografia funcional do cérebro operadas pela neuroplasticidade.

2. EMPATIA E DESIGN

Embora a actividade do hemisfério direito seja imprescindível para a criação e a fruição das artes, necessitamos também – como verificámos no caso dos savants – do exercício do hemisfério esquerdo em plenas funções, com vista a uma completa operatividade do hemisfério esquerdo. Se este não for inibidor da actividade do hemisfério direito existirá um acréscimo criatividade e de eficácia na comunicação entre os dois hemisférios, já que os dois lados do cérebro estão fortemente ligados por um tecido espesso chamado “corpo caloso” que permite a passagem de inúmeras mensagens entre os dois hemisférios a uma velocidade vertiginosa. A rapidez e eficácia na transmissão das mensagens sinápticas pelos axónios de uma célula, às dendrites de outra, são operadas pelos neurotransmissores.

O design, encarado como uma actividade de criar soluções de relevância estética, acaba por trabalhar, simultaneamente, numa pespectiva de pormenor – em que o hemisfério esquerdo é mestre – mas tendo sempre como pano de fundo uma perspectiva gestáltica, da responsabilidade do hemisfério direito. Além de, como vimos, a criatividade ser apanágio do hemisfério direito, as capacidades intuitivas, empáticas e de coesão social, também o são. Tal como observa Daniel Pink: “a empatia é uma parte essencial do design, porque os bons designers têm de se colocar na mente de quem está a viver a experiência do produto ou serviço que estão a conceber (…). A empatia começa aqui por ser uma postura vencedora do Design nos mercados, mas veremos que é muito mais: uma ética para a vida. A empatia é um elemento essencial para se viver uma vida com sentido”.

Segundo os textos de Francisco Varela no âmbito da Ética, a Ética activa não é “ fruto de nenhum sistema ético axiomático, nem mesmo de injunções morais pragmáticas. A sua mais alta aspiração é responder às exigências da situação particular”.  Estamos a falar de uma solicitude que, em vez de obedecer a regras, obedece a uma espontaneidade não egocêntrica, representando, assim, uma ponte para a alteridade.

A empatia desempenha um papel fundamental no tratamento de pacientes: Jodi Halpern (especialista em Bioética) é defensora da substituição, nas unidades hospitalares, do interesse profissional com tónica no distanciamento, por uma postura mais empática.

3. PRÁTICAS DE MUDANÇA 

Assim, nos hospitais e lugares afins, o papel do design pode hoje ser o de criar soluções vencedoras e empáticas. Com a sociedade muito mais aberta à intervenção do design, e com os designers munidos de conhecimentos sobre os efeitos das cores no ambiente, e de todas as variáveis respeitantes ao âmbito do design de interiores vocacionadas para o bem-estar, há uma relação biunívoca entre a melhoria das instalações hospitalares e o tempo de recuperação dos pacientes, usualmente atirados para hospitais com um ambiente mais propício à depressão do que e à cura. Daniel Pink fornece exemplos de estudos feitos em determinados hospitais, ou em alas novas de hospitais (em que houve intervenção de designers) e as conclusões são convergentes. Um desses estudos foi realizado em alas distintas do Hospital de Montefiore, em Pittsburgh, sendo uma ala sombria e cinzenta, e outra, uma ala moderna, agradável e cheia de sol. Foi demonstrado que os doentes colocados em quartos com muita luz natural, no pós-operatório precisavam de menos analgésicos e, em média, tinham alta até dois dias mais cedo. Todos estes melhoramentos são conformes às conclusões de António Damásio, segundo as quais “a neurobiologia das emoções e dos sentidos ensina-nos que a alegria e as suas variações são preferíveis à tristeza e efeitos associados, pois são favoráveis à saúde e à plenitude criadora do nosso ser.

Os estudos que o antropólogo Edward T. Hall tinha feito nas salas de espera hospitalares vieram a demostrar que eram espaços hostis à comunicação, avessos à privacidade e incapazes de proporcionar o mínimo conforto.Todos estes aspectos em que o designer tem um papel de relevo, põem em evidência, não só não só o carácter positivo da empatia, mas também dos benefícios financeiros provenientes do restabelecimento mais rápido dos pacientes nos hospitais públicos. 

Estes exemplos colocados em relevo são também extensíveis a bairros sociais. Alguma preocupação estética, e a preocupação de proporcionar actividades nos espaços públicos para melhorar o ambiente social, têm como contrapartida a diminuição da delinquência.

Este lado pragmático não invalida a simpatia pelo outro que se cruza connosco, simpatia portadora de carga emocional. Vemos, pois, o ganho de mercado e o ganho social que provêm de uma postura de empatia, perspectivada como a capacidade de nos colocarmos na pele do outro, ao ponto de intuir o que esse outro sente.  

4. A EDUCAÇÃO COM BASE NO DESIGN 

Segundo Donald Norman, “o design é um campo poderoso e dinâmico, cheio de promessas. Para ir ao encontro dos desafios do século xxi, o design e a educação em design necessitam de mudança”.

De facto, a educação na nossa cultura é focada numa cultura do lógico, sequencial e analítico, e esta preponderância radical determina que os alunos cheguem ao ensino superior com uma incapacidade notória para trabalhar com a intuição e relacionar elementos que necessitem da convergência de várias áreas disciplinares. Assim, não são sensíveis ao contexto em geral, nem conseguem abarcar perspectivas gestálticas.

Na verdade, este exacerbamento faz com que as decisões baseadas da intuição provenientes das áreas pré-frontais, não tenham lugar. E porém, estas correspondem, normalmente, a intuições antecipatórias da razão que funcionam como adivinhas inteligentes e sensíveis, além de proporcionarem ao organismo mais velocidade e eficácia nas tarefas. Torna-se também claro que estas decisões têm um carácter mais empático, já que estamos a falar da área responsável pelas emoções, tal como nos mostraram os trabalhos de Hanna e António Damásio.

Quando este tipo de decisão tem lugar “as áreas pré-frontais ficam muito activas e a criatividade opera com mais desinibição. Quando mais nos envolvermos no fluxo criativo (no sentido de Csikszentmihaily) mais escapamos à tirania da ordem conceptual, desvinculada de uma origem sensível. Porém, o trabalho crítico posterior à criação – para que a espontaneidade criativa possa ser apurada e, consequentemente, credibilizada – já deverá convocar em força a vocação da razão consciente.

Deste modo, ao criticar o ensino, é essencial colocar em relevo escolas secundárias de alguns países, em que o curriculum é vocacionado para o Design. Daniel Pink dá-nos vários exemplos destas escolas, analisando mais detalhadamente uma escola pública de Filadélfia, a CHAD (Charter High School for Architecture and Design). 

Não se trata de uma escola de elites. Segundo o relato do autor, três quartos dos estudantes são afro-americanos e 88 por cento destes provêm de minorias raciais. As disciplinas ensinadas são: design industrial, arquitectura, teoria da cor e pintura, que acompanham toda a escolaridade; as disciplinas básicas são ensinadas através do design. Assim, o ensino do design é combinado com matemática, ciências, inglês e estudos sociais. Pink dá o exemplo do estudo do Império Romano, em que os alunos não estudam apenas o transporte de águas, mas devem construir um aqueduto e aprender a procurar toda a informação e materiais de que necessitam, assim como a relacionar matérias dispersas para encontrar uma solução. Aliás, a solução deverá obrigatoriamente ser sustentável e entrar em linha de conta com o respeito pelo ambiente. 

Segundo a Direcção da escola, este procedimento vai de encontro ao que é o designer: um detective em busca de soluções optimizadas e estéticas, que interiorizou nos circuitos neuronais através de uma estratégia interdisciplinar. De acordo com o curriculum da CHAD, a formação transversal dos estudantes encarrega-se de lhes proporcionar um pensamento gestáltico e contextualizado. Por estas razões, Bárbara Chandler Allen (da CHAD) considera que, se o Design – agora mais acessível à bolsa das pessoas – introduz dimensão estética, prazer e sentido às nossas vidas, então ser designer é ser um agente de mudança.

5. A RELEVÂNCIA ESTÉTICA

 As empresas estão cada vez mais sensíveis à necessidade de integrarem designers, pois se a qualidade técnica dos produtos pode ser equiparada em muitas marcas, às vezes o que faz a diferença é o design. Esta foi sempre a filosofia da Sonny, por exemplo. Ao actuarem de acordo com esta filosofia, essas empresas estão a atender às exigências de relevância estética. Pink tece um comentário muito lúcido que mostra a legitimidade desta exigência, ao mostrar que qualquer torradeira estará em uso, no máximo, 15 minutos por dia. De facto, todo o resto do tempo, fica em exposição a exibir em silêncio a sua forma. Por isso, se torrar bem o pão, e se for agradável ao olhar, estará a cumprir uma bela função. 

O Design das torradeiras agora aparece também amigável, de acordo com as tendências do Design. Chega a ser difícil encontrar uma torradeira que não seja nada mais do que ela própria, pois no mínimo, é a reprise de uma torradeira que o Design imortalizou. Chegámos ao ponto de comermos as torradas que saem com o desenho dos nossos heróis preferidos. É natural que nos sintamos mais felizes se as formas forem amigáveis e lúdicas, se simultaneamente, proporcionarem qualidade de vida e sustentabilidade. 

Em 1955, Sergio Asti fez ressurgir o autoselz, o objecto que nos faz viajar até Apollinaire, que descreve a Paris dos bares, e o futurismo efervescente do autoselz. Num texto de Victor Margolin, agora publicado em livro, este relata-nos o uso tradicional do autoselz e põe em evidência o modo como a sua reinterpretação para a contemporaneidade significa uma mais-valia no quotidiano das pessoas. 

6. ÉTICA E DESIGN

Nesta era de abundância para uns, em contraste com a escassez total para outros, Robert William Fogel (Prémio Nobel de Economia) escreve que “um grande problema desta época é a iniquidade, sendo que a imaterial é provavelmente ainda maior do que a iniquidade material”. 

Ao considerar que a educação deveria ter em grande conta a intuição, e guiá-la através do desenvolvimento do hemisfério direito para que esta possa ser o ponto-chave para critérios decisórios de cariz ético, cito mais uma vez Francisco Varela, quando este nos diz que a Ética radica na sensibilidade à especificidade e à imediatidade das experiências vividas “e não na aplicação pura e simples das regras habituais”. A espontaneidade que nasce destas experiências é uma solicitude que respira a vocação da alteridade.

Tendo em consideração a receptividade progressiva da influência do design em vários campos, o designer – como alguém que foi preparado para dar um melhor uso à empatia e à intuição, enfatizado por um desenvolvimento considerável do hemisfério direito do cérebro – estará numa posição privilegiada para operar mudanças fundamentais na qualidade da vida das pessoas, visando, simultaneamente, a sustentabilidade planetária.

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